A harmonia das equipas multigeracionais

A dinâmica de equipas eficientes, com um olhar para as diferenças geracionais

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Na semana passada, passeava de carro com um amigo da minha geração, que me confessou algo, visivelmente perturbado:

– “Sinto-me como este túmulo do soldado desconhecido. Todos adoram a minha fachada, noivos querem tirar fotos, mas ninguém se preocupa em ler o que de facto sou”

… ri-me perdida, pois, quem me conhece, sabe bem, sobre a minha indignação as visitas dos noivos ao túmulo do soldado desconhecido, na marginal de Luanda… porquê? … Quem, no dia do seu casamento, quer ir tirar fotos num túmulo?? … Bem, aparentemente, alguns…

A metáfora era genial e dolorosamente verdadeira. Ninguém queria saber o que “ele era” … (um túmulo).

Meu amigo se referia a sensação de pirâmide invertida, que invade tantos profissionais experientes, quando, se veem a reportar a um Millennium ou até a um gestor da geração Z.

A experiência, supostamente a nosso maior trunfo, parece ter se transformado em algo cheio de valor sentimental, mas deslocado do contexto.

Seria injusta, essa tendência? É, certamente assustadora, … mais do que gostaríamos de admitir.

A experiência ensina-nos a evitar os erros do passado. Mas é, perigosamente míope para os erros do futuro, que são de uma natureza completamente nova.

Um jovem gestor pode ser precipitado, é verdade. Mas, a nossa “ponderação” pode ser, apenas, o nome pomposo que damos, ao medo de falhar num palco novo.

A rapidez, por vezes, não é precipitação, é agilidade. E a inactividade, por mais sábia que pareça, é uma decisão: a decisão de adiar a decisão.

Em Angola, este conflito ganha contornos, únicos e particularmente amargos. A geração X e os babies boomers são os que, muitas vezes, garantiram a continuidade da pátria, durante anos difíceis.  E agora, veem-se a ser ultrapassados por uma “fornalha” de jovens brilhantes que regressam da diáspora, falando, com toda a naturalidade, a língua dos algoritmos e da inteligência artificial.

Para mim em particular, que vi o marketing ser transformado em informática, com a dependência no comportamento do algoritmo, tem sido um período desafiador, para me manter actual e válida para o mercado.

Para completar a dicotomia angolana, a valorização dos consultores estrangeiros, também jovens, e que lá, no velho mundo, jamais teriam a ascensão e visibilidade que têm aqui. O favoritismo pela juventude é visível, e em muitos aspectos, compreensível. Eles trazem para o mercado angolano a linguagem da globalidade, e em Angola, com a carência de

mão de obra eficiente, precisamos de todos, os que falam a língua da evolução e do desenvolvimento.

Em minha opinião, todos são bem-vindos, se defendermos o critério da meritocracia. Na nossa realidade, o que verificamos é, mais que uma escassez de mão de obra qualificada, uma desconfiança no “produto interno bruto”, quer pela qualidade do nosso ensino, quer pela falta de cultura de formação contínua.

Então, qual é o papel da formação contínua nesta guerra fria, cultural e geracional? Sugiro 2 caminhos:

Para a geração experiente: um olhar para a aprendizagem com humildade estratégica.  A formação não é um castigo, é antes uma ferramenta relevante. Fazer um curso em uma plataforma de e-learning sobre Inteligência Artificial para Líderes, não é para se tornar um engenheiro de dados. É perder o medo e entender as novas dinâmicas laborais, evoluir e acompanhar os tempos.

A experiência, quando iluminada pelo novo conhecimento, torna-se a bússola que guia as equipas e evita, que resvalem dos objectivos.

Aos jovens gestores, a formação contínua em liderança e gestão de equipas é fundamental, para aprenderem que a autoridade não vem do cargo, mas da capacidade de inspirar, trazer segurança, inclusive, para quem tem mais anos de estrada.

Sugiro, ainda, um terceiro caminho para uma existência com criatividade: a prática de mentorias invertidas e recíprocas – onde os jovens ensinam os séniores sobre tecnologia e os séniores partilha a sabedoria das relações humanas, das negociações complexas, tão presentes em Angola, e a arte de navegar na burocracia diária.

A formação é a ponte que impede que uma visão inovadora seja recebida como uma inocência perigosa e que um contributo experiente seja entendido como ultrapassado e fora de forma.

A harmonia de equipas multigeracionais não é, em si mesma, o fim. É o combustível para a resiliência empresarial. Uma equipa só é inovadora se for diversa. E só é forte se estiver harmonizada. Como diz o tão famoso proverbio africano: juntos vamos mais longe.

Por isso, e por Angola, continue remando, não abandone o barco.

Artigo publicado por:

Sónia Antas (4 min. de leitura)

Directora Geral da Trimethodus
Coordenadora Pedagógica
Mentora de liderança, personalidade e gestão de equipas
linkedin.com/in/sonia-antas

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